Brinde final à juventude (de Alma Welt)
Meus amigos, erguei juntos as taças
Para o brinde final da juventude!
Daqui pra frente o mofo e as traças
E quanta porcaria que nos grude...
Dizem que ora chega a plenitude
Da maturidade, sim, é o que dizem.
Báh! Fui feliz e jovem enquanto pude
Mas não impeço as horas que deslizem
Ribanceira a baixo, como as pedras,
E vede com vão rolando às tontas *
Enquanto em ti mesmo o limo medras.
Mas afastemos o cálice da amargura.
Proponho novo brinde sem afrontas,
E a nova idade chegue com fartura!
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Final toast to youth (Alma Welt)
(Google translator)
My friends, raise their glasses together
For the final toast of youth!
From now on the mildew and moths
And how much crap on us...
They say that now comes fullness
Maturity, yes, that's what they say.
Bah! I was happy and young as I could
But I can't prevent hours goes slipping
Down the ravine, as rolling stones,
And see how going dizzy
While slime grows on ourselves.
But move ourselves away from the cup of bitterness.
I propose new toast without reproach,
And that the new age will come in abundance!
sexta-feira, 2 de maio de 2014
O Eterno Jogo (de Alma Welt)
O castiçal e o jogo de cartas - Georges Braque, 1910
O Eterno Jogo (de Alma Welt)
Hei de saber o sentido disso tudo,
Por quê tantos poemas e delírios,
Por quê tudo é cambiante e eu não mudo
Mas fico em mim fluindo como os rios?
Hei de saber o porquê de ser poeta
Quando em volta nada corrobora
E todos têm em mente outra meta,
A jogar como se nada fosse embora.
Vão-se as horas, minutos e os segundos
E eu só penso em torná-los tão floridos
Como aqueles terrenos mais fecundos...
Mas finalmente cercada de beleza
Que transformei dos lances mais doídos,
Porei as minhas cartas sobre a mesa...
O Eterno Jogo (de Alma Welt)
Hei de saber o sentido disso tudo,
Por quê tantos poemas e delírios,
Por quê tudo é cambiante e eu não mudo
Mas fico em mim fluindo como os rios?
Hei de saber o porquê de ser poeta
Quando em volta nada corrobora
E todos têm em mente outra meta,
A jogar como se nada fosse embora.
Vão-se as horas, minutos e os segundos
E eu só penso em torná-los tão floridos
Como aqueles terrenos mais fecundos...
Mas finalmente cercada de beleza
Que transformei dos lances mais doídos,
Porei as minhas cartas sobre a mesa...
sábado, 28 de abril de 2012
A Dança das Horas (de Alma Welt)
Às vezes sinto que o meu sono ronda
Certo fauno que hesita e em demoras
Estende a mão sobre esta Gioconda,
Adormecida dança das minhas horas...
E volúpia já me invade o sonhoCerto fauno que hesita e em demoras
Estende a mão sobre esta Gioconda,
Adormecida dança das minhas horas...
Por me sentir assim meio “entregona”
Pronta para um toque que proponho
Com meu sorriso liso de uma Mona.
E então começam fortes outros lances
Que a razão bloqueia ao me acordares
Pois no pudor das horas não avances,
Que suspeito que alcoviteiras sejam,
Tal como as ratasanas dos altares
Que de noite o vinho e o pão festejam...
segunda-feira, 10 de março de 2014
O Embalo das Horas (de Alma Welt)
Foi-se a manhã da juventude, docemente,
Como o próprio dia, bem mais tarde
Dá seu lugar ao nostálgico poente
Que vem adormecer como quem arde...
Assim foi minha vida, nesse embalo,
De precário equilíbrio na balança,
E com as horas escoando pelo ralo
Das promessas vazias da esperança.
Sonhei, foi o que fiz e o quanto pude,
E agora mesmo só existo no papel
Ou tenho no soneto a completude.
Mas se há algo nisso de fracasso,
Também tem um pouco deste céu
Que insistiu em dar-me o seu compasso...
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Noturno (de Alma Welt)
Noturno (de Alma Welt)
Só o casarão restou-me, e o vento,
Minha última vindima já acabou;
O tempo agora corre bem mais lento
Mas a minha esperança já levou...
O relógio do salão só bate as horas
Dos dois ponteiros juntos para o alto
E eu que nada espero das demoras
Já não mais me pego em sobressalto.
Tudo é passado e eu nem envelheci
Na pele e no cabelo, nem nos lábios
Que ainda evocam os vinhos e o rubi.
Eis que em busca estou de mim perdida
E me guio por estrelas e astrolábios
Só pra voltar ao meu porto de partida...
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Prólogo (de Alma Welt)
Dediquei meus dias à Poesia,
Quero dizer, ao puro ato de viver
Mais pelo real que à fantasia,
Que esta sonha, nem gosta de escrever...
Sempre repousei na terra os pés.
Afirmo isto no sentido literal,
Pressentindo esse pulsar sutil do rés
Onde nasce a pura fonte mineral
Dos infinitos versos e idéias
Que compõem um universo inteiro
Que há entre as flores e as colméias.
Então não perdi as minhas horas
Só molhando a pena no tinteiro,
Mas sugando a essência das demoras...
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Quero dizer, ao puro ato de viver
Mais pelo real que à fantasia,
Que esta sonha, nem gosta de escrever...
Sempre repousei na terra os pés.
Afirmo isto no sentido literal,
Pressentindo esse pulsar sutil do rés
Onde nasce a pura fonte mineral
Dos infinitos versos e idéias
Que compõem um universo inteiro
Que há entre as flores e as colméias.
Então não perdi as minhas horas
Só molhando a pena no tinteiro,
Mas sugando a essência das demoras...
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segunda-feira, 8 de junho de 2009
O Edital (de Alma Welt)
Manhãs do meu sonho, esfuziantes,
Que me faziam descer o corrimão
Deslizando como todos os infantes
Que habitaram este vetusto casarão
Naquela ânsia de viver e de voar
Pelo nosso jardim e pradaria
Ou sob a macieira do pomar
Cujo pomo a passarada me anuncia!
Gloriosas e radiantes minhas manhãs
Em que por sentir-me tão vital
Fazer quisera, igualmente, um Edital
Anunciando os frutos da Poesia
Que honrei, malgrado as horas vãs,
E “o tempo que perdi em ninharia”...
05/09/2006
Nota
Acabo de encontrar este belo soneto, verdadeira "profissão de fé" de poeta, na Arca da Alma. Notem que "...o tempo que perdi em ninharia" é uma citação na íntegra de um verso do primeiro terceto do soneto de Benvenuto Cellini (célebre ourives e escultor da Renascença Italiana) que serve de epígrafe ou prólogo para a sua famosa autobiografia. O soneto termina com estes versos:
" ...benvindo (Benevenuto) fui
Na graça desta terra da Toscana!"
Que me faziam descer o corrimão
Deslizando como todos os infantes
Que habitaram este vetusto casarão
Naquela ânsia de viver e de voar
Pelo nosso jardim e pradaria
Ou sob a macieira do pomar
Cujo pomo a passarada me anuncia!
Gloriosas e radiantes minhas manhãs
Em que por sentir-me tão vital
Fazer quisera, igualmente, um Edital
Anunciando os frutos da Poesia
Que honrei, malgrado as horas vãs,
E “o tempo que perdi em ninharia”...
05/09/2006
Nota
Acabo de encontrar este belo soneto, verdadeira "profissão de fé" de poeta, na Arca da Alma. Notem que "...o tempo que perdi em ninharia" é uma citação na íntegra de um verso do primeiro terceto do soneto de Benvenuto Cellini (célebre ourives e escultor da Renascença Italiana) que serve de epígrafe ou prólogo para a sua famosa autobiografia. O soneto termina com estes versos:
" ...benvindo (Benevenuto) fui
Na graça desta terra da Toscana!"
sábado, 6 de junho de 2009
A quermesse (de Alma Welt)
Eu gostava da quermesse na cidade
E há pouco descobri a razão disso,
Ali há uma pequena sociedade,
Arremedo do mundo a seu serviço:
Sortes, jogo, comércio e pescaria
Além os tiros, desafios e os aportes,
Um jovem descobrindo uma guria,
Os olhares, suspiros e transportes,
E, bah! Os sonhos que não morrem,
Os anseios numa eterna romaria
Do coração que busca sua poesia
Em que lança suas raízes para o fundo
E se agarra enquanto as horas correm,
O carrossel girando como o mundo...
28/10/2006
E há pouco descobri a razão disso,
Ali há uma pequena sociedade,
Arremedo do mundo a seu serviço:
Sortes, jogo, comércio e pescaria
Além os tiros, desafios e os aportes,
Um jovem descobrindo uma guria,
Os olhares, suspiros e transportes,
E, bah! Os sonhos que não morrem,
Os anseios numa eterna romaria
Do coração que busca sua poesia
Em que lança suas raízes para o fundo
E se agarra enquanto as horas correm,
O carrossel girando como o mundo...
28/10/2006
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Perplexo Porto (de Alma Welt

Nau - lito de Guilherme de Faria
Perplexo Porto (de Alma Welt)
Como preencher as brechas dos minutos
E das horas preciosas as lacunas
No nosso mar de anos nas escunas,
De tédios padecendo e escorbutos;
Motins de nossas mentes rebeladas,
Forcas e pranchões nas amuradas,
E terra à vista anunciada, afinal,
Pelo gajeiro num qualquer tope real?
Eis a travessia que nos coube
No grande mar do Tempo um só segundo
Em rota que o homem nunca soube!
Para aportar num cais sinistro e frio
Num porto que sabemos bem mais fundo,
Perplexo e na foz de um novo rio...
terça-feira, 14 de maio de 2013
O Livro Preto (de Alma Welt)
O Livro Preto (de Alma Welt)
Bem sei que os meus dias são contados,
E quem não os tem no Livro Preto?
Mas sabê-lo é o pior dos tristes fados,
Pois tal cômputo outrora era secreto.
Agora... como voam as minhas horas!
E não tenho o fecho pro arremate
Do meu último soneto de demoras
Enquanto aguardo o verso que me mate.
Então fico na varanda a olhar o sol
Que é como me consolo de morrer
Sonhando com meu último arrebol.
Debalde! Não me adianta o expediente,
Pois quanto mais intensamente sinto ser
Mais me dói abandonar a minha mente...
Bem sei que os meus dias são contados,
E quem não os tem no Livro Preto?
Mas sabê-lo é o pior dos tristes fados,
Pois tal cômputo outrora era secreto.
Agora... como voam as minhas horas!
E não tenho o fecho pro arremate
Do meu último soneto de demoras
Enquanto aguardo o verso que me mate.
Então fico na varanda a olhar o sol
Que é como me consolo de morrer
Sonhando com meu último arrebol.
Debalde! Não me adianta o expediente,
Pois quanto mais intensamente sinto ser
Mais me dói abandonar a minha mente...
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Scherzo (de Alma Welt)
Scherzo for Brass Instruments by Walter Spies, Oil on Board, 1939
Scherzo (de Alma Welt)
As belas horas passadas em folguedo
Scherzo (de Alma Welt)
As belas horas passadas em folguedo
Com estas lindas crianças que me cercam,
São o que de melhor vivo, sem medo
Daquelas que perdidas, clamam, imprecam.
Pois à Natureza é grato o riso,
A dinâmica dos pulos, energia,
Exclamações ingênuas de improviso
Entre gritos e palmas de alegria...
E quisera que a vida sempre fosse
Tais momentos de jogos e scherzo
Antes que triste adágio se me aposse
Em lágrimas de beleza comovida,
Que é a outra máscara a que rezo,
Para que a morte seja bela como a vida...
São o que de melhor vivo, sem medo
Daquelas que perdidas, clamam, imprecam.
Pois à Natureza é grato o riso,
A dinâmica dos pulos, energia,
Exclamações ingênuas de improviso
Entre gritos e palmas de alegria...
E quisera que a vida sempre fosse
Tais momentos de jogos e scherzo
Antes que triste adágio se me aposse
Em lágrimas de beleza comovida,
Que é a outra máscara a que rezo,
Para que a morte seja bela como a vida...
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Sob o véu (de Alma Welt)
perfil de Alma Welt- desenho de Guilhermee de Faria 2001
Sob o véu (de Alma Welt)
Vou entre a tristeza e a alegria
Talvez demais num oscilar sem fim,
Mas quisera explodir-me na Poesia
Como uma mulher-bomba de mim.
Vou entre a tristeza e a alegria
Talvez demais num oscilar sem fim,
Mas quisera explodir-me na Poesia
Como uma mulher-bomba de mim.
Báh! Como recordo minhas andanças
Por aí antes do tempo das tormentas
Quando minhas jornadas eram mansas
Com seu aconchego de horas lentas...
Como eu era bela, Deus do céu!
E agora já enxergo as minhas olheiras
Quando me atrevo a erguer o véu
Da angústia que me toma de repente
Sob a capa de lendas corriqueiras,
Eu mesma antes do pomo e da serpente...
Por aí antes do tempo das tormentas
Quando minhas jornadas eram mansas
Com seu aconchego de horas lentas...
Como eu era bela, Deus do céu!
E agora já enxergo as minhas olheiras
Quando me atrevo a erguer o véu
Da angústia que me toma de repente
Sob a capa de lendas corriqueiras,
Eu mesma antes do pomo e da serpente...
sábado, 15 de setembro de 2012
A Rastreadora (de Alma Welt)
A Rastreadora (de Alma Welt)
O soneto é minha terra de poesia
E nele a alma está em seu cenário,
Habitat natural onde sou guia
E rastreadora ao contrário
O soneto é minha terra de poesia
E nele a alma está em seu cenário,
Habitat natural onde sou guia
E rastreadora ao contrário
Pois a mim é que faço me seguir
Toda vez que ausculto o coração
Para invés de perscrutar o meu porvir
Voltar à uma primeira comunhão...
Que de mim sou intérprete cigana
Nas horas vagas que não as de sonhar
Minha vida como saga pampiana.
E se procuro na Vida o seu sentido
Nos meus versos hei de o encontrar
Pois neles o meu próprio está contido...
Toda vez que ausculto o coração
Para invés de perscrutar o meu porvir
Voltar à uma primeira comunhão...
Que de mim sou intérprete cigana
Nas horas vagas que não as de sonhar
Minha vida como saga pampiana.
E se procuro na Vida o seu sentido
Nos meus versos hei de o encontrar
Pois neles o meu próprio está contido...
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Sonetos delirantes da Alma (de Alma Welt)

pintura de autoria de Alma Welt
Sonetos delirantes da Alma (de Alma Welt)
O gaucho triste (de Alma Welt)
1
Vinha o gaucho ereto em sua sela,
Montado no vento e sem cavalo.
A noite carecia de uma vela
Que a lua era negra e sem um halo.
“Vai-te”, disse eu, “por quem me tomas?”
“Sou a prenda fiel de pai e irmão,
E não deixarei que escuras formas
Venham entrever meu coração!”
E o gaucho espectral continuava
Ali, com a face branca e triste,
E o zum de seu silêncio se arrastava.
Longos bigodes, chapéu de barbicacho,
No seu punho uma lâmina em riste,
A outra mão a conter o rubro facho...
05/02/2004
Sob a figueira (de Alma Welt)
2
Sob a figueira em sonho estava ela,
A branca peregrina de uma noite,
Sentada de viés em sua sela
Os olhos a pedir que não me afoite.
E eu me aproximei arrepanhando
Minha longa saia de cetim
Com meus pés inseguros caminhando
Numa espécie sedosa de capim
Dourado, como a bruma que luzia
E envolvia tudo em doce flama
Que por si apaziguava e seduzia.
E eu ouvi a voz que se me canta,
E o coração, ao recordar, ainda inflama:
"Virás comigo em breve, Alma, Infanta."
A Cavalhada (de Alma Welt)
3
A cavalhada vem durante o sono
E passa por mim em sobressalto,
Que desperto então em pleno Outono
Com as folhas varridas para o alto.
E corro, bah! eu corro desde então
Das minhas horas em fluxo contrário
Que buscam varrer-me para o chão
Com seu vento forte e arbitrário,
O Minuano, sim, que se diz dono,
E me quer não como às folhas, mas mulher,
Eu que prefiro os cavalos do meu sono
Que brancos como ondas me seduzem
E no abismal galope me conduzem
Aos páramos profundos do meu ser...
10/03/2005
Noites abrasadas (de Alma Welt)
4
Noites abrasadas, tão freqüentes
De minha grande dor transfigurada,
Quando o vão clamor pelos ausentes
Deixava o meu rastro pela escada.
Madrugadas doridas entre os galos
E os latidos longínquos na estrada;
Os minutos escorrendo pelos ralos,
Dedos e passos percorrendo o nada.
Depois o som há muito ausente do piano
Negro e mudo, a vir do tétrico Steinway
Que o mestre dedilhava e outrora amei,
Agora que só tons graves se ouvem
Tangidos pelo intruso Minuano
Como arremedo surdo de um Beethoven...






